Mariana

A TRAGÉDIA DE MARIANA

Não havia sirene de alerta. Eram 16h20 quando as barragens da Samarco romperam e coube aos próprios moradores aterrorizados do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, avisar uns aos outros que uma avalanche de lama se aproximava.

Persuadidos repetidamente pela empresa de que as barragens de Fundão e Santarém nunca falhariam, eles tiveram poucos minutos para se proteger da onda de quase 2,5 metros de altura que matou 17 pessoas e feriu outras dezesseis. Cerca de 600 ficaram desabrigadas e, até então, duas nunca foram encontradas. Suas vidas, aparentemente, não valiam o preço de uma simples sirene.

Rejeitos da extração de minério de ferro começaram por cobrir Bento Rodrigues naquele 5 de novembro de 2015, criando uma paisagem de ruínas matizadas em vermelho e marrom. Depois de fazer o percurso de 2,5 km até Bento Rodrigues, a lama contaminou o Rio Doce, soterrando nascentes e causando sua esterilidade no curto prazo.

A lama ressecada, pobre em material orgânico, impede o crescimento de qualquer vegetação e arruinou terras férteis locais. Especialistas dizem que pode demorar décadas para a natureza se recuperar se a lama ficar intocada. Autoridades ambientais afirmam que 11 espécies de peixe, endêmicas à região, podem ter sido extintas.

Calcula-se que 62 bilhões de litros de rejeitos seguiram por 700 km entre Marina e o Rio Doce até o mar, o suficiente para encher 24.800 piscinas olímpicas. Depois foi revelado que o próprio engenheiro contratado para construir as barragens avisara um ano antes da existência de rachaduras. Pediu à empresa fortificações para evitar um fenômeno chamado liquefação, resultante da saturação excessiva da barragem. A empresa diz que seguiu suas recomendações. O engenheiro afirma nunca ter recebido resposta quando foi cobrá-las. Até fevereiro de 2016 a investigação continuava, embora as autoridades e as empresas Vale e a BHP Billiton, controladoras da Samarco, já concordassem em criar um fundo de R$ 20 bilhões (aproximadamente US$ 5 bilhões) para remediar as consequências.

Os brasileiros já viveram outros desastres ambientais. Não é preciso muito esforço para lembrar a contaminação por césio-137 em Goiás ou a poluição sufocante no pólo industrial de Cubatão. Mas, para um país já atordoado pelo maior escândalo de corrupção de sua história, e também por uma crise econômica ligada ao fim do ciclo de mercado que inflou os preços das principais exportações brasileiras, a tragédia em Mariana pareceu acordar seus cidadãos para as consequências da falta de planejamento, monitoramento e fiscalização.

Os números favoráveis na balança comercial se transformaram em sofrimento humano palpável e destruição da natureza. Falsamente oculta nos pequenos derrames e destruições ocasionadas pela mineração em todo o país, a verdadeira tragédia se tornou terrivelmente visível.

Mariana foi o epicentro do desastre, dando ao ato de registrar suas ruínas um papel importante na documentação do horror, mas também de torná-lo menos impessoal. Enquanto se discute a culpabilidade, a única certeza é a ausência dos que morreram e a ruína de suas vidas. Documentar seus retratos borrados, artigos pessoais manchados e casas destruídas é como relembrar as vítimas na retina de quem vê seus fragmentos. É como dizer aos que perderam entes queridos ou suas casas que sim, a vida deles vale algo, muito mais que uma sirene ou bilhões de dólares. Ela vale o esforço da memória e do luto de uma nação inteira.

*Patrick Brock é jornalista em Nova York

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